...vivenciar diariamente a morte. Acompanhamos o doente desde a sua admissão, durante o seu internamento até à sua saída, criando ligações, profissionais, mas por vezes também afectivas, estabelecemos uma relação empática. Assistimos por vezes impotentemente ao declinar da saúde e das forças, recebendo confissões, queixas e pedidos dolorosos de ouvir. Estamos com o doente nos momentos finais e temos de informar os familiares e ajudá-los a iniciar o processo de luto, o que pessoalmente considero ser o mais dificil. É muito dificil, por vezes impossivel mesmo não sentir simpatia (sim+pathos) para com os familiares; ainda que digamos para nós mesmos que o doente não era nosso familiar, nem nosso amigo, o grau de sofrimento normalmente manifestado pelos familiares (por vezes presentes no momento) afecta-nos profundamente, mesmo procurando escapatórias (que talvez não sejam as mais eficazes) como a indiferença, pela qual ás vezes somos criticados, por quem desconhece a complexidade do processo. Cada vez mais as implicações destas situações nos profissionais de saúde são alvo de estudos, mas continuam desvalorizadas e os seus efeitos podem ser muito nefastos para o profissional que sem acompanhamento, sem ajuda é sujeito a elevados níveis de stress e de forma cumulativa pode levar a situações como o síndrome de burnout. São complicações que afetam a pessoa não só na sua vida profissional, mas também na sua vida pessoal, afetam os seus familiares e amigos mais próximos. Infelizmente, ninguém cuida de quem cuida.
05 novembro, 2010
O fim?
...vivenciar diariamente a morte. Acompanhamos o doente desde a sua admissão, durante o seu internamento até à sua saída, criando ligações, profissionais, mas por vezes também afectivas, estabelecemos uma relação empática. Assistimos por vezes impotentemente ao declinar da saúde e das forças, recebendo confissões, queixas e pedidos dolorosos de ouvir. Estamos com o doente nos momentos finais e temos de informar os familiares e ajudá-los a iniciar o processo de luto, o que pessoalmente considero ser o mais dificil. É muito dificil, por vezes impossivel mesmo não sentir simpatia (sim+pathos) para com os familiares; ainda que digamos para nós mesmos que o doente não era nosso familiar, nem nosso amigo, o grau de sofrimento normalmente manifestado pelos familiares (por vezes presentes no momento) afecta-nos profundamente, mesmo procurando escapatórias (que talvez não sejam as mais eficazes) como a indiferença, pela qual ás vezes somos criticados, por quem desconhece a complexidade do processo. Cada vez mais as implicações destas situações nos profissionais de saúde são alvo de estudos, mas continuam desvalorizadas e os seus efeitos podem ser muito nefastos para o profissional que sem acompanhamento, sem ajuda é sujeito a elevados níveis de stress e de forma cumulativa pode levar a situações como o síndrome de burnout. São complicações que afetam a pessoa não só na sua vida profissional, mas também na sua vida pessoal, afetam os seus familiares e amigos mais próximos. Infelizmente, ninguém cuida de quem cuida.
24 outubro, 2010
Adiável mas inevitável
...assistir à chegada dos "auxiliares de enfermagem" ou como lhe querem chamar "técnico auxiliar de saúde". Como eu já esperava, aconteceu o inevitável, e foi publicada a Portaria 1041/2010 que leva à criação destes técnicos. Lendo as funções designadas, à partida, estas pouco ou nada acrescentam ás atuais funções das assistentes operacionais (AO), com a diferença de terem formação específica para as funções a desempenhar e terem funções legalmente definidas, o que nem sempre acontecia com as AO. O enfermeiro deve cuidar do doente, da pessoa com uma doença (nunca podemos negligenciar esta condição). Não se focalizando na doença, que será do domínio médico, o enfermeiro é responsável por assegurar a satisfação das necessidades humanas básicas do doente enquanto este se encontra numa instituição de saúde, atendendo ás limitações impostas pela doença e pela institucionalização, mas é também responsável pela preparação do doente para a sua vida após a alta, com as novas condições impostas pela doença. O enfermeiro deve atuar não enquanto ser humano (com as limitações impostas enquanto tal), mas enquanto profissional de saúde, com o poder, o conhecimento e as competências para ajudar a pessoa doente. Atenção que o facto de ser responsável pela satisfação das necessidades, não significa que tenha de ser ele a executar todas as tarefas, muitas delas podem ser delegadas, sobretudo se tivermos pessoas com um mínimo de formação a quem as possamos delegar. Aos enfermeiros que dizem que vão ficar com pouco trabalho, eu respondo "se quiserem"... Se o enfermeiro fica mais liberto daquelas tarefas rotineiras, que pouco exigem de si enquanto profissional diferenciado que é, tem de aproveitar o tempo que ganha, para estar de facto com os doentes, analisando toda a situação do mesmo com o tempo necessário, todos os problemas, e encetar as medidas necessárias para os ultrapassar ou minimizar, sendo que poderá gastar mais tempo com um doente independente nas AVD's mas com outras necessidades por resolver do que com um doente totalmente nas AVD's, mas que pouco requer na verdade do enfermeiro, o que atualmente só pode acontecer teoricamente. Os doentes começarão a sentir que o enfermeiro está de facto ao seu lado quando necessita dele e não quando este quer/pode (dadas as rotinas impostas) e a imagem social do enfermeiro começará a ser valorizada, com todas as vantagens que daí advêm. Por outro lado, o enfermeiro fica com mais tempo para investir na formação, na sua, na do doente e familiares/cuidadores, devendo ainda aumentar a sua autonomia nas tarefas que desempenha, ou seja, reduzir as intervenções dependentes/interdependentes ao máximo de modo a poder prestar cuidados de modo mais eficaz e eficiente. Espero (embora não acredite muito) que a enfermagem portuguesa saiba aproveitar este impulso, esta indicação do caminho certo a tomar e consiga tornar o enfermeiro num profissional indispensável, coisa que como facilmente se percebe não acontece atualmente.
18 outubro, 2010
Realidade Virtual
...ficar seriamente irritado. Fico mesmo com os nervos em franja com aqueles profissionais com quem (infelizmente) temos de lidar diariamente no trabalho que estão completamente alheados da realidade, sobretudo quando também são enfermeiros e que exercem funções dispensáveis, cargos criados para aqueles que ficaram sem nada que fazer quando extinguiram os anteriores cargos por serem dispensáveis (um ciclo viciosa à "tuga"). São aqueles indivíduos que vivem num outro mundo, numa realidade perfeita mas inexistente, penso que não seja por não conhecerem a verdadeira realidade, mas porque não a querem conhecer e porque não têm de a conhecer, já que ocupam sempre umas funções (leia-se "tachos") onde trabalhando (termo figurado) fisicamente distante acabam por não saber as condições de trabalho, as limitações e os sacrifícios de quem realmente trabalha e com o maior dos moralismos mandam palpites e tecem criticas sobre o nosso trabalho, como se tivéssemos o mesmo tempo e as mesmas condições que eles. Quando isso acontece, no mínimo tenho vontade de os obrigar a calçar umas luvas e fazerem tudo o que ainda está por fazer enquanto eu vou comer qualquer coisa, já que não entra nada no meu estômago há largas horas; depois de terem tudo feito, gostava de saber se ainda continuam a achar que "seria melhor fazer isto ou aquilo"; quando o tempo mal chega para o essencial, o que fazer a quem sugere que devíamos investir mais em coisas de menor importância? Já que aparentemente no nosso miserável país não se pode viver sem os "jobs for the boys", pelo menos devia-se envolver os "boys" no verdadeiro trabalho, criando interacções com todos os profissionais que lhes permitissem ter uma noção no mínimo aproximada da realidade; se nem isto for possível, então, pelo menos, que fiquem no seu canto ideal e não venham incomodar quem já trabalha mais do que o que é aparentemente possível.
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09 outubro, 2010
Teoria da evolução
...resistir à evolução natural das coisas. A informática está a invadir tudo, incluindo a saúde e como sempre, os enfermeiros são um ponto de resistência à inovação. Na enfermagem, a informática ainda faz pouco mais que substituir o papel pelo "digital" e mesmo assim a implementação é difícil. Parece uma anedota, mas teima-se em passar do registo em papel para o registo digital (até agora tudo bem) e depois... imprimir uma cópia (em papel) dos registos digitais! Mais uma vez, seguindo minha a "mania", pergunto, para quê? Como seria de esperar, as respostas são tão descabidas (para não lhes chamar outra coisa) como o ato em si. Questionam o valor legal da assinatura digital, quando este está decretado desde 1999 no Decreto-Lei n.º 290-D/99, sendo recentemente confirmado pelo Decreto-Lei n.º 62/2003. Falam do risco de perda de informação digital; mesmo sem saber a qualidade do sistema informático do ministério da saúde, sei que é muito difícil perder informação digital, quase de certeza guardada em mais que um servidor, de certeza absoluta mais difícil de perder do que uns papéis mal presos a uma capa velha que corre o hospital e por vezes o exterior deste, por várias mãos; qual a facilidade dos papéis se perderem? Enquanto os papéis podem voar, arder, dissolver-se em água e sei lá que mais fragilidades, os registos digitais dificilmente se perdem ou adulteram, dada a sua extrema fiabilidade (qual a probabilidade de uma catástrofe eletromagnética?). E qual o valor de uma impressão não autenticada, não assinada, não carimbada ou coisa que o valha? Um papel que eu posso muito facilmente copiar e adulterar num programa tão simples como um editor de texto. Quando os frágeis argumentos são rebatidos, resta a habitual afirmação "lá estás tu a ser do contra", quando eu até estou a favor (da evolução tecnológica). Porque insistem os enfermeiros em contrariar a mudança, a evolução, em vez de a usarem para tirarem proveito dela? Damn it! Assim não "saímos da cepa torta"...
27 setembro, 2010
Insight
...vivenciar inesperadamente episódios de introspecção. Depois de uns dias de calma, paz e felicidade aproveitados até ao último minuto, arrumo as coisas todas dentro do carro numa correria interrompida por um agricultor desconhecido que passava e na sua calma pergunta: "Já de partida? pois, é preciso começar a trabalhar não é?" Eu respondi afirmativamente enquanto acabei de arrumar as coisas com mais calma, vendo-o desaparecer como apareceu, a pensar na pergunta e na resposta, pensamento que se prolongou pela viagem, que ainda foi longa. Seria mais feliz o agricultor que na sua calma seguia calmamente para o seu trabalho, não porque "tinha de ser", mas porque "podia ser" ou eu na minha correria para trabalhar porque "tinha de ser" apesar de talvez "não poder ser"? Será o trabalho uma parte assim tão importante da nossa vida que se possa sobrepor à família, aos amigos, à saúde (física e mental), à felicidade? Quanto vale a possibilidade de se trabalhar em contacto directo com a natureza, combinando o ritmo desta com o nosso, aproveitando o que ela nos oferece e tentado oferecer-lhe também alguma coisa? Lucrar com o nosso trabalho e não deixar que alguém lucre com ele enquanto nos explora... São opções de vida ou uma questão de oportunidades? Mas quem é que mandou o raio do agricultor com as suas palavras tão simples quanto abaladoras?
18 setembro, 2010
Falta de...
...estar a chegar ao fim de mais umas férias e já a pensar nas próximas. É ao contatar mais com pessoas de outros países que se torna evidente a pobreza do povo português, não (só) a económica, mas a pobreza educacional, a falta de valores (ou os valores incorrectos), a falta de moral, falta de visão, falta de princípios básicos, de sonhos, de respeito pelas pessoas e pelas coisas, por eles próprios, de tanta coisa... não tenho aquele sentimento de patriotismo, mas com pessoas assim, não me sinto culpado por isso. Não é só na enfermagem que existem (muitas) pessoas assim, mas é um problema nacional generalizado e um problema maior ainda é o facto do futuro já estar condenado à partida, pois quem no presente construirá o futuro já está "contaminado" por esta pobreza e assim não sei quando conseguiremos sair do fosso. Existem claro excepções... uns fogem (leia-se emigram), outros ficam por cá e agregam-se em empresas que são uma excepção ás restantes, aquelas empresas que transformam as crises (que levam as outras à falência) em oportunidades para continuar a crescer, ignorando as críticas invejosas dos que queriam os mesmos resultados sem o mesmo trabalho, o mesmo esforço, a mesma visão e inteligência. Existem ainda outros dispersos que não se chegam a agregar, por falta de oportunidade talvez. Mas chega de falar mal dos "tugas", noutra oportunidade falarei mais. Boas férias para quem ainda vai, que por mim é tempo de voltar ao trabalho, com as energias recuperadas, com o bom humor e a paciência de volta, mas com o espírito critico e "aquele borbulhar cá dentro" em alta.
"Há uma força motriz mais poderosa que o vapor, a eletricidade e a energia atómica: a vontade." (Albert Einstein)
01 setembro, 2010
Férias!
...finalmente gozar as merecidas e desejadas férias. Apesar de quase toda a gente já ter gozado as suas "férias grandes" eu só vou agora, não me deixando demover pelos meios de comunicação social que me invadem constantemente com a mensagem que "as férias já acabaram", ou "o verão chegou ao fim", "de volta ao trabalho"... é triste, mas os enfermeiros não podem gozar (todos) férias em Agosto como as outras pessoas (maioria), mesmo que queiram. É só mais uma desvantagem de ser enfermeiro, mais uma daquelas desvantagens inerentes à profissão mas negligenciada. Espero conseguir recuperar do cansaço... físico e psicológico, restaurar energias, a paciência, a tolerância e bom humor. Boas férias para quem como eu ainda vai de férias e bom trabalho para quem já foi.
Até ao meu regresso!...
23 agosto, 2010
Tinóni...
...ter a noção que os portugueses são muito (demasiado) activos/intervenientes em situações de emergência. Em caso de acidente os portugueses não param só para ver, também gostam de ajudar, muitas das vezes acaba por ser uma ajuda nefasta, mas isso é outra história. Mesmo em coisas simples como para deixar passar um veiculo prioritário, são capazes de abalroar o que (ou quem) seja para facilitar a passagem, mesmo que seja de um jovem que caiu e partiu um dedo (mas os bombeiros gostam de ligar a sirene), situação que pelo que sei não acontece em países como a França, onde as pessoas por norma não facilitam mesmo nada. Outro exemplo é o elevado número de bombeiros voluntários que temos no nosso país, onde pela possibilidade de praticar atos (ou actos para quem não está "acordado") heróicos (que por vezes não passam de salvar uma floresta ou uma mata das chamas) arriscam a própria vida. Como último exemplo deixo a ânsia em criar os TEPH/TEM enquanto profissionais/heróis da EMERGÊNCIA pré-hospitalar e SÓ disso, especializados (tanto quanto um técnico pode ser) em emergência no ser humano (sobre o qual pouco percebem). Se uma situação estiver rotulada como emergência, são capazes de fazer o que for preciso, ainda que logo a seguir o altruísmo seja esquecido em situações onde a sua intervenção seria muito mais eficaz e necessária. Tenho esta noção, e gostava de saber se quem trabalha em Emergência Pré-Hospitalar partilha da mesma.
05 agosto, 2010
Todos diferentes todos iguais
...ser menor do que os iguais. Os humanos são todos iguais na sua essência, basicamente com as mesmas fraquezas, os mesmos receios, a mesma composição. Existe no entanto muita gente que não pensa nisso e se acha maior que uma microscópica poeira no meio do infinito Universo, mas não o são e esta visão egocêntrica não manifesta mais do que a ignorância dos mesmos, relativamente ao que são e ao que os rodeia. São pessoas que, talvez tentando disfarçar a sua fraqueza interior se aproveitam do seu estatuto por exemplo nos locais de trabalho e exercem opressão sobre os que lhe são hierarquicamente inferiores, abusam do poder e fazem ameaças, desconhecem as regras da boa educação e viram as costas deixando as pessoas a falar sozinhas; e quando saírem para o exterior e tirarem aquela máscara? Será que também vão ter coragem de virar as costas sabendo que no mundo exterior já não são mais fortes? Quando se virem numa situação de crise, acidental ou intencionalmente criada, também viram a cara aos que eram mais fracos mas nesta situação são mais fortes? Se calhar deviam pensar nisto, pois nunca sabemos o que o destino nos reserva e quem o pode moldar de variadas formas, mesmo aqueles que pensamos ser mais fracos e a quem viramos as costas ignorando o risco de sermos "apunhalados pelas costas".
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29 julho, 2010
Teoria económica
...criar teorias sobre algo sobre o qual nem se percebe muito. Apesar dos meus parcos conhecimentos em economia, num daqueles momentos de reflexão, surgiu-me uma teoria sobre a actual crise económica. Teorizo assim que a origem da crise económica mundial, antes de petróleos, de flutuações de moeda, crises imobiliárias, créditos, hipotecas e não sei que mais explicações está em algo mais básico e ao mesmo tempo mais difícil de mudar. Porque temos nós de trabalhar (e para isso nos pagam)? Para produzirmos os produtos, bens e serviços que precisamos; com a evolução tecnológica, é preciso cada vez menos trabalho humano para a necessária produção dos mesmos, o que significa que as pessoas deviam trabalhar cada vez menos, sendo que se passa o inverso, com as pessoas a trabalhar cada vez mais horas diariamente e durante mais anos (antes de se reformarem), o que leva a um inevitável aumento do desemprego, que a meu ver não é mau (se se mantiver a necessária produção); assim, sendo que o cada vez menor trabalho não é distribuído por todos, quem ficar com ele vai dividir o dinheiro que ganha com aqueles que não trabalham, daí a imagem negativa do desemprego que seria inexistente se o trabalho necessário fosse melhor distribuído. Por outro lado, os vendedores dos produtos, bens ou serviços, mantendo o preço de venda e baixando o custo de produção por precisarem de menos mão-de-obra vão ficando cada vez mais ricos, levando a que o fosso entre estes (ricos) e os trabalhadores e os desempregados (pobres) aumente. Julgo então que enquanto não for feito nada para mudar o funcionamento básico deste ciclo económico, as crises por uma razão ou por outra vão ser inevitáveis. A menos que alguém com mais conhecimentos em economia que eu detectar alguma falácia na minha teoria, vou continuar a acreditar nela; se esta teoria não é inovadora, lamento mas não me dei ao trabalho de pesquisar isso. Quanto à enfermagem, de uma coisa tenho a certeza, cada vez será preciso menos mão-de-obra, desengane-se quem pensa o contrário.
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